domingo, julho 05, 2020

O amor não é raro

O amor não é raro
Raros são os peitos abertos
encharcados de inflamável paixão

O amor não é raro
Raros são os olhos abertos
a procurar qualquer sutil faísca de ternura

O amor não é raro
Raro é o tato aberto, sensível, 
a pele propositalmente arrancada
para sentir tudo que há pra sentir
em tudo que há

O amor não é raro
Raro é o destemor

Raro é a mão que,
aberta e sem medo,
entrega uma alma frágil
para ser tocada. 

O amor
não
é
raro.

terça-feira, junho 23, 2020

Nada é tão fácil

Nada é tão fácil
Segurar um pássaro nas mãos requer destreza
Um tanto de compassividade
e leveza

Nada é tão fácil
Segurar as mãos num pássaro requer destreza
Um tanto de compassividade
e leveza

Nada é tão fácil
Segurar leveza nas mãos requer um pássaro
Um tanto de compassividade
e destreza

Nada é tão pássaro
Segurar o fácil nas mãos requer um tanto.

Fábrica de Tijolos

Eu tenho uma amiga
e ela tem uma fábrica de tijolos.
Vi no decorrer dos anos ela construir tanto, arranha céus
fez moradias, igrejas, capelas e shopping centers.

Ela não notava
era coisa de família
negócios que nos passam despercebidos.
Não notamos.
Mas ela tinha uma fabrica de tijolos
desde cedo
muito cedo.

Desde sempre.

Vi desmoronar várias vezes
casas, castelos, sonhos, capelas e shopping centers
e reergue-los, lindos edifícios.
Sem notar, tinha uma fonte inesgotável de tijolos.

Construía casas
vendavais levavam
outras horas, reformas
às vezes apenas mudança de cidade.

Aos poucos foi percebendo a fornalha
um fogo ardente, enorme e quente
que ao invés de consumir
cozia
criava e construiria.

Tijolo por tijolo, foi percebendo
lentamente
a argamassa, cimento e brita.

Ela tinha uma fábrica de tijolos.
Reconstruía sempre,
Infinita fonte.

Um dia
enquanto ainda percebia
Sentiu arder seu ventre.
Notou-se fornalha ardente
mas ao invés de consumir
paria.

Eu tenho uma amiga
ela é uma fábrica de tijolos.
E oceano.

Andreza Marinho.

domingo, maio 17, 2020

É preciso florescer
Florestar-se
Enraizar.

terça-feira, maio 12, 2020

Orfandade

O que é a morte de um pai ausente?
O que se sente na saída de um pai que nunca esteve?

A morte de um pai ausente
É a ausência da ausência presente
É não ter definitivamente o que nunca tive
A orfandade me vem como desilusão
É a morte de uma esperança
A morte do que nunca vivi

A morte do pai ausente é o afago tépido do Pai Eterno
A morte da possibilidade

Se tive um pai sempre distante
A orfandade me chega preenchendo todas estas lacunas com presença.

Foi a primeira vez que o vi dormir.

Saibam por mim:
Ser órfão não é o mesmo que não ter pai.

Diferente do lugar de pai, enterro hoje um esquife presente e preenchido
Com a esperança de pai.

domingo, abril 19, 2020

Às vezes temos pérolas

Às vezes temos pérolas
que nas mãos de outros, viram lama.
Deixemos, às vezes, nossas pérolas
protegidas
em feias ostras.
Na língua macia das ostras.

domingo, março 01, 2020

Sobre lavar pratos

É tanto prato e panelas e copos e pires e xícara e cadinhos e tampas e potes e garfos e facas e as colheres. Espuma e detergente e esfrega e água e enxague e coloca e equilibra e molha e espuma e o cheiro acre da preguiça.

quinta-feira, fevereiro 13, 2020

é como um navio é como um cais

é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é como um navio é como um cais é

domingo, fevereiro 09, 2020

Percurso de lágrima

Repentinamente uma lágrima escapou
Saiu morna e silenciosa, dificultando minha percepção
Acelerou-se para a liberdade, passou rápido pelo nariz
Tentei, incrédulo com tudo isso, captura-la
Mas só alcancei seu rastro, molhado
Ao chegar no desfiladeiro do maxilar, parou um segundo
Respirou fundo e
pulou.

Aquilo era tudo muito novo
Levantei barreiras intransponíveis
Tão complexas que não conhecia mais os funcionamentos
Complexas, antigas, concretas. Intransponíveis.

Houve silêncio
Um formigamento no rosto
A visão fosca por uma baía salgada
Um desespero, uma alegria velada e esquisita
Meus olhos fumegando
E como um estouro, uma avalanche
um descarrilamento
Um caudal.

O fluxo de água e sal a muito trancafiado
com as porteiras abertas da minha alma
fugiu numa quantidade sem precedentes
O medo da pequena oportunidade se dissipar
fez todas as lágrimas se atropelarem
Queriam sair todas de uma vez
e parece que saiam

Eu via aquilo tudo como que de longe

E num momento, um som
Um guincho, eu acho
Um grito agudo e dissimulado
Eu nem sabia que havia preso
E o primeiro gemido úmido saiu
E não diferente das lágrimas
me fogem todos os ais, de uma vez
mas eram tantos, eram muitos

Eu, meio de longe, não sabia o que era lágrima
ou gemido, ou qualquer tanto de fluidos e sons
desconhecidos, improváveis
Foram escapando. Escapando.

Não contei, mas acho que foram sete dias e sete noites
ou quarenta.

Então, percebi um vazio, um espaço amplo
Salões inexplorados
Um vazio escuro, nunca iluminado
Um espaço novo e tão desconhecido.

E uma leveza.

sexta-feira, janeiro 31, 2020

Cicatriz esquecida

Tenho uma cicatriz no calcanhar esquerdo. Fui um acidente na piscina quando eu era criança. Sofri um bocado. A cicatriz não é pequena e as memórias são muitas. Porem, as vezes passo um ano ou mais sem lembrar dela. Não por esforço. Simplesmente ela está num local que eu não passo muito o olho. As vezes eu acho que eu passo mais de ano sem lembrar disso, acredita? Sim. Mas a cicatriz está lá. Além de todas as memórias também. Vocês entendem? Nada sumiu, nada foi esquecido e eu não me esforço pra não pensar. Está lá e sempre estará.

Um pedreiro meche comigo

Tem uma construção aqui perto de casa.
Toda vez que eu passo
um pedreiro meche comigo.
Já tem uns dois meses.

E ele nem sabe.

Espirito Santo

Estava eu sem fazer nada, vi um grupinho de cinco homens discutindo religião e politica. Uns tios que não entendiam nem de um nem de outro.
— Posso ficar pra ouvir?
Acharam estranho. Eu de boné azul, shortinho azul, tênis azul e meio afeminado:
— Pode.
Quando cheguei, estava um deles, obviamente o que toinha a Bíblia na mão, falando sem parar e claramente se distanciando do ponto que estava sendo debatido momentos antes de eu chegar. Os outros, impacientes, ficavam "Chega logo ao ponto, rapaz!" e "Deixa eu falar!", mas ele não parava. Interpelava-os com "Não posso ler a Palavra?". Foi quando Intervi:
— Sim, mas qual é o ponto? Ainda não entendi o que cada um está defendendo ou acusando.
Os outros tentaram me explicar, mas ele interrompia. Lia versículos com pouca ou nenhuma ligação um com o outro. Eu sempre muito atento ia, aqui e ali, fazendo pequenas correções amigáveis.
O primeiro apertou minha mão, foi embora. Depois o segundo, o terceiro. No final só estava eu. Escutando ele ler aleatoriamente um Isaías, um Romanos. "Você está entendendo, pq da pra ver que você já leu a Bíblia". Na verdade nunca li. Mas sei uma coisa ou outra. No final, ele percebeu que realmente não falava mais nada com nada. Como eu estava ouvindo com atenção e não replicava nada, acho que ele passou a se ouvir e ficou acanhado. Então comentei:
— O senhor viu que ninguém ficou?
— Ah meu filho, não é todos que querem ouvir a Palavra.
— Na verdade é que eu acho que o senhor é meio prolixo, as pessoas acabaram não querendo mais ouvir.
Ele sorriu desconsertado.
— Mas ficou você, não é mesmo? Quem sabe não foi o Espirito Santo que lhe tocou pra me escutar?
— Ou quem sabe o Espirito Santo me tocou pra eu falar isso pro senhor? O senhor precisa articular melhor as palavras. Quando melhor o senhor falar, mais pessoas vão parar pra lhe escutar. Preciso ir agora.
E ele ficou lá. Com um olhar meio perdido.

Amanhotem

Hoje eu queria estar em outro dia.

— Sonhei contigo

— Sonhei contigo
— Hmmmm e foi? Me conta.
— Eu nem lembro direito
— Seiiiii hahaha vai, conta
— Melhor não, tu vai ficar sem graça
— Eu? Sem graça? hahahahha vai conta
— Tá. Eu sonhei que eu vomitava na tua boca e tu virava uma casa de praia.


(Facebook, 9 de Janeiro de 2020)

quarta-feira, setembro 26, 2018

Convalecente

Hoje uma criancinha, linda, respondeu trin-trin pro meu trin-trin da bicicleta
O moço da fila disse "Pode passar na minha frente"
A mulher na rua chamou o gato como se fosse cachorro:
— Alvinho, já pra casa! Entra!
E ele obedeceu.
Na casa Espirita, aprendiam alguma coisa
senti uma energia boa.
As moças da cantina me chamara e falaram:
— Olha como a gente te identifica na comanda
"Gato", tinha escrito.
O porteiro abriu o portão antes de eu pedir
Tinha um menino com a bolsa escrito
GUEI
— Gostei da bolsa!
Disse, enquanto passava por ele de bicicleta
Deu tempo de ver ele feliz, e encabulado, agradecer.
Independente da minha alma
que compadece
O mundo floresce.

sexta-feira, outubro 21, 2016

Cavalo selvagem - Conto zen

Ele tinha mente tal qual cavalo selvagem. Arisco e bárbaro, não deixava-se domar e nunca aquietava-se. Não desanimado ele incessantemente esforçava-se a doma-lo. O proposito era evidente, precisava montar a mente.
Sete semanas se passaram e, suado, o homem tentava domar sua mente-cavalo. Desastrosamente falho. A cada aproximação o cavalo pulava, corria e relinchava ao seu bel-prazer. E quando viu-se segurando o laço com força e, por um momento, imaginou-se com as rédeas da mente, o coice o jogou do outro lado do campo.
Desistiu.
Desatou os laços e sentou-se em baixo de uma arvore.
O cavalo danou-se a correr pelo pátio, livre. Saltos e relinchos, agora de alegria. E ele observava de longe. Cada trote, cada pulo. Observava com atenção cada movimento. O movimento livre do cavalo.
Viu-se montado no cavalo a cavalgar.
Não havia cavalo.
Não havia sombra, nem árvore.
Não havia homem.
Só havia o todo.
E era vazio.

Ao final do raio, nasce uma fogueira

A emoção
— raiva, alegria, decepção, desilusão —
é como um raio,
que corta o céu do ser em um segundo apenas.

O resto é memoria
e retroalimentação.

Que a fogueira que você anda alimentando?
qual nasce ao cair do raio.

quinta-feira, janeiro 15, 2015

Mousi

Esse movimento, que não sei o hoje
De ontem, tão pouco moveu o dia
Cada passo conduz, em si mesmo, um prazo
Que se dissolve em seu próprio mover
Derrete-se em leves saltos

em leves segundos

segunda-feira, novembro 03, 2014

Um velho um dia me disse que o amor não existe.
Eu acreditei.
E volto pra dizer que
Se o amor não existia, eu o criei
com minhas próprias mãos.

segunda-feira, maio 05, 2014

Il cielo e la neve

Está nevando no meu quarto
Sopra um vento frio e solitário...
Nada é real além da solidão
E do escorregadio chão de ilusões

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

Semente

Cada poema é um pedaço de si mesmo, que se esvai como como pólen, ao encontro de férteis e ventres corações.

sábado, fevereiro 01, 2014

Criar expectativas é sim um ato agrário

Criar expectativas é sim um ato agrário.
A terra normalmente já fértil e sempre arada
Úmida de chuvas passadas e de um rio de esperança que corre ao sul

Ao menor sinal do Sol e de novas chuvas, toda a terra é semeada
Hectares.

Não mais que um dia e os brotos aparecem
Esverdeando o solo até perder-se de vista no horizonte

Os caules começam a endurecer, as primeiras flores nascem
E do que era verde, explode em cores e aromas.

A plantação barra os gira-sois e as tulipas.

E então. Depois de pouca espera, começam a nascer os frutos.
E é neste momento que conhecemos os bons fazendeiros.

Todo fruto é possível.

E de todos os frutos, o mais excêntrico é o da ilusão.
Há os que sabem apreciar como quem come fruta da palma sem se machucar nos seus espinhos. Mas há os que se envenenam.
Nem todos sabem apreciar um bom fruto de ilusão.

Mas dessas expectativas também pode não nascer nada, ou tudo.
Cabe a quem planta saber aceitar e se alimentar do que nasce.

A minha safra morreu.
Mas mesmo sem frutos maduros colhidos, apreciei toda a linda plantação nascer.
Amar é beber o amargo gosto da desilusão e saber saborear o que se imaginava doce.

quarta-feira, outubro 16, 2013

Ávido de nascer ave
voou breve no colo dos sonhos

Morrendo breve no colo dos sonho
voou ávido no colo dos anjos.

sexta-feira, outubro 11, 2013

Batatinha Frita 1, 2, 3!

Sorvete colorê, batida salve todos.
Golô o ovo, pé repete
O elefante é de que cor? pega congelô.
Primeiro de roda, pega cocorô.
Fulaninho atras do poste
Não vale, falei primeiro.
Adedonha, zerinho ou um
Corre, é quem chegar primeiro.

Censou.

segunda-feira, setembro 09, 2013

Tentando ser uma pessoa que não é
Pra ir para um céu que não existe.

sexta-feira, setembro 06, 2013

Como perder tempo
Com o relógio amarrado na braço?

Como amarrar os ponteiros
Pra desamarrar os sapatos?

Entre os ponteiros e o vidro
Vácuo

quinta-feira, setembro 05, 2013

Tiros.
Ouvi tiros pela janela.
Meu coração nem disparou.
Medo.
Medo de não me impressionar mais.

quinta-feira, agosto 15, 2013

þrá

É desejo e saudade
Amor e iniquidade,
Soberba liberdade,
De quem outrora
Se viu livre pra voar.
Tatuei teu nome em mim
Com a cor da minha pele.

quinta-feira, agosto 01, 2013

Sentado na beira do rio ele lia os novos contos de Charlote Cadense. Seus cabelos, em cuia, voavam perdendo a forma recorrente. Dançava na lisa pele. “Corredeiras desciam a cordilheira. Cadentes cofres de cintilantes cores. Corvos.” Não gostava da maneira que Charlote usava as palavras. Mas lê-la lembrava-o do seu passado. Sim, seu passado distante. Um ano, apenas. Não era de se espantar, Pedro tinha 16 anos. Um ano é uma vida.

sexta-feira, junho 14, 2013

Husserl e Sartre conversavam num café de Basileia.
Sobre o que conversavam?
Sobre o gosto bom do café naquela tarde.
Minha vontade é de chorar ao ver o modelo de policial que temos.
Mas a lagrima seca em desgosto e vira cuspe. Escarro.
Hoje eu tive um lindo passeio por Recife.
Que caminhada gostosa!
Na praça de Santa Izabel começamos a cantar. 
Tendo o coração vazio sabiá canta tambem. 
A rua da Aurora foi cumplice de outro dueto.
Ninguém, ninguém, verá o que eu sonhei. 
Só você meu amor.
Ninguém verá o sonho que eu sonhei.
Sentando em um banquinho na esquida na Ponte Princesa Isabel com a Aurora
Vi fusquinhas passarem com pessoas lindas.
Pela ponte cantamos mais e fomos cantando, sonhando e amando.

Que noite maravilhosa.
É tudo tão lindo e tão terrivel.
A lágrima rola no riso sem contradição.
Essa cidade é louca.

quarta-feira, maio 22, 2013

Inspiração

Um dia perguntaram a um grande criador:
-De onde vem a inspiração?
-Vem de tudo - respondeu calmamente - de todas as coisas que estão ao seu redor, que entram em contato com você, que participam com você da vida.
-Então a inspiração está no ar? - Perguntou o curioso, com um leve tom afirmativo.
-Não, não está no ar. - respondeu claramente o criador e continuou - O ar por si só não é nada. É só o ar, sendo ar. Mas quando eu respiro, quando ele enche meus pulmões de vida, e que oxigena meu corpo e cerebro. Isso sim é inspiração. Só depois disso tudo vem a expiração, que é tão importante quanto a inspiração. Do contrario morremos inflados.

sexta-feira, abril 12, 2013

Vestuário

Cadarço a amarra-lhe os pés.
Gravata a enforca-lhe a voz e o folego.
Relógio a algema-lo num tempo alheio.

Não esqueça-se de apertar bem o cinto,
diafragma solto é problema na certa.

Abotoe calmo sua blusa,
lembrando a cada botão:
"As roupas da lavanderia chegam em breve."

terça-feira, março 12, 2013

No final, somos só nós e nós mesmos.
Ao lado, a angustia, tão sempre desprezada
mas sempre ao lado, sempre presente.

Mas amanhã, mesmo assim, o Sol nascerá
E a angustia, fera sem pálpebras, esperará
o derradeiro momento da inércia do sono
para lembrar-lhe:

"Estou aqui, tenha um bom dia."

segunda-feira, março 04, 2013

Todas as auroras já não brilham mais
Tantas outras não brilham ainda.

domingo, março 03, 2013

Dancei ciranda na chuva
Chovia ciranda na nuca

domingo, fevereiro 17, 2013

Doce caligrafia

Ah se eu pudesse escrever o que eu sinto.
Seria escrito em uma língua diferente da que eu entendo.
Mas seriam letras lindas, palavras de doce pronuncia.

Em uma caligrafia fina e tremula,
escreveria palavras fortes.
Finas linhas e profundos sulcos no papel,
daqueles que sentimos ao passar os dedos.

Lindos floreios e borrões
espalhando a tinta por todo o papel,
formando desenhos inexprimíveis

Letras de mulher, com força masculina

Rasgos no papel, da afiada caneta esguia
O que será dessa carta.

O cheiro metálico da tinta é sentido por quem lê
Relembrando desgostosos acidentes do paladar à caneta

Se eu pudesse escrever o que eu sinto
Escreveria palavras indiscretas de leitura pesada
e dicção dificultosa.

Ah, se eu pudesse me escrever em papel molhado de pingos salgados e doces risos.

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Fora de nós, tudo é palavra.

quarta-feira, janeiro 02, 2013

Feliz é a espuma, que flutua em bolhas cadentes no mar da imaginação.

domingo, dezembro 09, 2012

Oréade.


                Havia um homem que morava ao pé de uma montanha. Ele era só. Sempre viveu só. Curiosamente subia todas os dias aquela montanha de pedras escorregadias e pontiagudas.
                Além de sua vida absurdamente solitária. Chamava muito a atenção dos moradores, o estranho costume que ele tinha de subir, quase todos os dias, aquela montanha.
                Curiosos, os moradores escolheram uma pessoa para descobrir o estranho motivo que aquele velho tinha pra subir a montanha. Decidiram que no próximo dia, o escolhido iria seguir o velho até o topo, escondido e descobrir tudo.
                No outro dia, como de costume, o solitário velho se preparou para a íngreme subida. Não era fácil. Pedras afiadas e pontiagudas botavam a vida em risco. O curioso sumia escondido alguns metros atrás. Depois de um bom tempo, já com os joelhos e mãos machucados o velho chegou ao topo da montanha. Fechou os olhos sentindo as caricias do vento. Tomou folego e gritou para a cordilheira – Eu te amo.





Texto e ilustração: Cayo Cé.

segunda-feira, novembro 19, 2012

Quem ama, ama porque o amor transborda de si.
Não cabe em um só peito, até que acha outro que também transborda
então se enchem, se saciam e matam eternamente a sede sem fim.

Mas há os que amam porque lhes faltam amor. Cuidado.
E ela sofria enquanto cantava suas próprias dores.
E na música ela contava todas. Uma a uma. Um numero enorme.
Um numero incrível de musica e lagrimas.
O palco era a lista de seus sofrimentos.

domingo, novembro 18, 2012

Minha boca sangra malditas palavras não ditas
que trazem ao paladar o gosto metálico e exótico do arrependimento.

terça-feira, novembro 13, 2012

Cacofonias e repetições

Quero ver, quero ver tudo
ver além, além de tudo.
Quero cegar, cerrar meus olhos.

Quero sentir, sentir de tudo
tocar a alma, tocar o mundo.
Quero sarar, trocar a pele
a carne viva, a flor-da-pele.

Quero escutar, ouvir a alma.
Cortar os tímpanos, ouvir mais nada.

Quero falar, cantar o mundo.
Quero calar, fechar a alma.

sexta-feira, outubro 19, 2012

Saiba; eu posso ter alergia ao remédio que lhe tira a dor de cabeça.

O que lhe cura, pode me envenenar.

segunda-feira, outubro 15, 2012



Queria ter virado uma pintura rupestre.
Ficado pintado lá nas paredes do Catimbau.
Correndo sem cabeça por seis mil anos.

Ou uma pedra. Vivendo inerte por milhões de eras.
Vez ou outra rolando pela ribanceira, clímax da vida.

Ou apenas virado uma brisa. Ajudar uma folha seca a chegar no chão e sumir.

sexta-feira, outubro 05, 2012

Ter Sol nos olhos.
 Dói como qualquer dor, qualquer paixão ardente.
 Dói como raio arrebatador, como fuligem cósmica nos olhos.
Terçol na alma, nas suas janelas.

domingo, setembro 09, 2012

Sou negro de cor, europeu de odor e índio de terra.
Todos cantem, todos cantam.
Sou dança, poeira e sangue.
Sou terra, suor-mar, sou rio.
Sou pedra de ouro, madeira de sangue e tambor de kalangu.
Sou terra e além mar.

Todo o céu que lhes guardem.
Todo canto que os assopre.
Toda vela que os leve, que os vele, que os vale.

Sou pai, filho e espirito santo. Amém.

quinta-feira, junho 28, 2012

Na mesmice do marasmo
sento na noite do não fazer
E nessa madrugada fria
espero amanhã ser

Conservo-me na nem inercia

domingo, maio 20, 2012

Um grande teste

                Era um dia decisivo. Depois de anos de treinamento um aprendiz iria ser testado pelo seu mestre. Foram anos de exercício árduo na mais especifica arte marcial. Um exímio lutador. Então seu mestre chegou trazendo um robusto bastão de bambu, uma das armas mais bem manejadas pelo aprendiz.

-Mandei colocar um grande tigre dentro daquele cômodo. – disse o mestre e enquanto entregava a arma, falou – Vá, quero ver se você é capaz.

                O jovem fez uma grande reverencia e seguiu indômito. Entrando numa grande sala, viu sentado no cato um grande tigre. Sim, bastante grande, mas velho. Era um tigre que já não era tão feroz. Também percebeu que suas garras estavam serradas. E suas duas principais presas, arrancadas.

-O que será isso – pensou o aprendiz – por que colocaram um tigre nesta situação?

                O tigre, mesmo velho, avançou com sua ferocidade selvagem pra cima do aprendiz. Desviando da primeira investida o aprendiz começou a colocar seus ensinamentos marciais em pratica. As investidas eram ininterruptas. Quanto mais ele batia, mais raiva sentia por terem colocado um tigre moribundo, que pra ele não oferecia perigo nenhum. O tigre não resistiu e morreu. Ainda com raiva, o aprendiz saiu da sala. Arrastava com certa dificuldade o pesado tigre. Soltou na frente do mestre e esperou os congratulações em reverencia. O mesmo simplesmente olhou para o tigre e comentou:

-Não achei que você seria capaz.

                Jamais se encontraram novamente.

quarta-feira, abril 11, 2012

Um alento de contato, entre os filhos dos olhos
Uma lente de contato, entre os cilhos alados

-O pêlo que guarnece a beira das pálpebras dos homens e dos macacos.
Cayo Cé

segunda-feira, março 05, 2012

Des[a]prender

                Dois gnomos liam bastante. Gloin lia um livro, colocava no chão de frente a estante e pegava outro. Quanto mais ele lia, mais aumentava a pilha de livros em que ele estava sentado. A estante de livro era altíssima, não faltavam títulos. Enquanto Gloin acumulava livros e já estava a 5m do chão, via que além dos muros do labirinto, havia um mundo. E cada vez que ele lia mais e ficava mais alto, mais o conhecia.

                Enquanto isso, Trufo lia um livro calmamente. Depois de ler, rasgava o livro em pedacinhos e jogava num cesto. Gloin, além de achar o ato do amigo um absurdo, achava o próprio amigo muito ignorante. A torre de livros de Gloin já passava os muros do labirinto e agora ele tinha que pescar os livros na prateleira La em baixo. E via o amigo burro lendo um livro, rasgando e jogando em um cesto.

                -Você é muito ignorante Trufo - gritava Gloin com um pequeno alto falante de latão - Não vai chegar a lugar nem um assim! Daqui posso ver as montanhas e acho que em pouco poderei ver o oceano. 

                Trufo já tinha rasgado uma quantidade incontável de livros. De lá de cima, com sua pequena luneta, Gloin o via jogar água e cola dentro da bacia empanturrada de papel picado. Gloin tinha lido um livro, riquíssimo, sobre reciclagem de papel e percebeu logo o que o amigo estava fazendo.

                -Você é mais burro do que eu imaginava Trufo - gritava Gloin, desesperado para ser ouvido - só tem eu e você nesse labirinto, você vai escrever pra quem rapaz? Daqui já consigo ver uma coisa azul, não sei ao certo se é um lago ou se já é o oceano, mas você está perdendo de conhecer as coisas jogando tudo fora assim!

                A pilha de livros de Gloin já chegava a quase tocar as nuvens. Bambeava um pouco, dava até medo. Mas Gloin se vangloriava de poder ver tanta coisa, observar tantos detalhes. Sim, estava um pouco chateado de não ter mais o amigo pra conversar, mas é por que ele ficou tão burro lá em baixo... Enjoou de olhar pra uma montanha e foi ver o que o amigo estava fazendo. De longe, viu Trufo ascendendo uma pequena chama.

                -Aquele louco agora ta queimando papel? - Se espantou Gloin, que quase se estabacou de cima da sua pilha de conhecimento. - Agora já passou dos limites da ignorância, a obtusidade de Trufo chegou ao seu limite extremo. É um caso de esquizofrenia paranoide aguda, sem duvida - Gloin tinha lido um livrinho sobre psicologia. - Trufo seu ignorante você agora ta queimando pap...

                Foi quando Gloin viu uma coisa que nunca tinha lido.

                Todo aquele papel virou algo que parecia uma lâmpada, um jarro de ponta cabeça ou uma gota que pingava pro céu. Era branquinho, branquinho. Aquele papel todo, cheio de palavras, com as informações mais preciosas, tinha se transformado em um lindo... como era mesmo o nome? Balão. Trufo subia em uma velocidade espantosa, um foguinho na boca do balão aquecia o ar e, como Gloin tinha lido, o ar quente era tão mais leve, mais solto, desprendido. Ele que tinha aprendido tanto...


                Em poucos segundos o balão se igualou à Gloin e Trufo disse.
                -Adeus amigo, agora vou conhecer o mundo.”

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Ode a puta (ou Odete, a puta.)

Eu que durmo de quarto em quarto
Sinto o peso das minhas excamas
Sinto o peso de suas exmolas
O brilho fosco de minhas exquinas
Os rasgos molhados dos meus vestidos
                                                            [trocados de noite em noite]
Sinto os fidalgos perdidos jogados de sanidade vã
Que se esvaem de mim como sêmen
Como são, como não são, como não sou. Como não sã
Iansã que me toma no leito e me acalenta o peito, mordido
Santa Barbara que me aquece o ouvido
Me lembra que de meu peito não sobrou nem o hímen.

Odete Gomes

terça-feira, janeiro 10, 2012

Sabe quando você se mergulha
Quando você se bebe
Quando se derrama
Quando é choro e quando é onda
Sabe quando se é liquido a escorrer pela esquina,
pela escada
Pelo fim, pelo meio, pelo fio
Sabe quando é vapor, fumaça de gelo
Sabe água?
Sabe fluido morno que dá vida
Sabe sopa, sabe mar?
Sabe quando seca
Sabe quando sede, quando cai em cachoeira?
Sobe nuvem? Desce chuva.
Sabe água?

Seja litros.

domingo, janeiro 08, 2012

Dei um tiro no meu pé
No grito, comecei a filosofar.

quarta-feira, novembro 30, 2011

Cefaleia

Cefaleia é o nome de uma cidade imaginaria.
Uma cidade em guerra civil.

Ah, Cefaleia dos guerreiros doidos, das noites em claro.
Cefaleia dos amores perdidos, das esperanças esvaídas.
Nas tuas ruas, dor. Nas tuas casas fogo.
Cefaleia dos guerreiros sem cansaço.
Procura paz e muda teu nome.

quarta-feira, agosto 17, 2011

Canto #1

Oh, teu peito madrigal, ópera do meu desassossego
Cantei desesperanças à solidão
Mas me vieste tu. Não a flor no deserto, entre rochas proféticas
Mas um jardim no olho da floresta ardente entre arvores maestrais
És o jardim, a floresta e o canto majestoso dos pássaros
É cheiro, cor, Cassandra, colírio, dor, prestigio e desassossego
Pressão real da pulsação do meu peito
És real e denso como a carne que evita, diariamente, ser devorada pelos dentes diurnos, soturnos e idolatrados do cotidiano esfumaçado, pedregoso e asfaltado, mas que no fim da noite reina absoluta e imponente na junção dos corpos suados e insatisfeitos de paixão e luxuria.

terça-feira, agosto 16, 2011

Eu me perco na inércia do desapego.
não no sentido de não me achar,
mas no sentido de não me empregar

não me arranhar.

quinta-feira, abril 14, 2011

Então corremos juntos na chuva.
Ninguem sabia o que era choro, o que era chuva.
Ninguem sabia o que era felicidade, o que era tristeza.

quinta-feira, abril 07, 2011

Layla.

O céu estava lá, eu vi. Só não via sentido. O mar estava lá, eu vi. Só não via sentido. O vento estava lá, eu senti. Só não via sentido. As flores estavam lá e não murcharam, eu vi. Só não via sentido. O sol estava lindo, brilhava, eu vi. Só não via sentido. O sangue escorria rubro, eu vi. Só não via sentido. Todos corriam, sem sentido mesmo. Ela estava no meu colo, como sempre. Só não tinha sentido. O buraco no peito ainda estava quente e minha mão o comprimia vã. Ela estava morta, como tudo um dia estará. Só não tinha sentido. Eu estava vivo, eu sabia. Só não tinha sentido.
Kampf Rugdz

quarta-feira, março 16, 2011

Esse Crepúsculo me veio e trouxe de presente uma paleta de cores.
Com ela pintei um poema.
E guardei pra mim.
Cayoce

domingo, fevereiro 20, 2011

Gaveta

Abri uma gaveta e senti o seu cheiro
Fechei com força e tranquei com duas voltas.
Lá ficou minha insulina, minha aspirina, meu remédio de pressão
Ficaram o controle da tv, a chave de casa e dois livros
Minha bombinha de asma e o nebulizador
Tranquei a chave da dispensa e o jogo de xadrez

Então, quando percebi, dentro da gaveta estava minha casa
À duas trancas estavam meus sapatos, a gravata e o violão
Cerrado entre as madeiras, meus amigos e duas ruas
Todas as lojas e supermercados
Todos os parques e uma floresta
A casa de campo e meu vizinho

Quando me atinei, a minha volta não tinha nada
Só quatro paredes, um chão e o teto.
Todos de madeira, revestidos com teu cheiro.
César Gomes

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Mas é preciso paixão. Paixões arrebatadoras, saraivadas.
Das que se confundem com volúpia, pura luxúria, mas que não o é.

Não tema.

Mas é necessário paixões. Das que dilaceram em prazer, a alma e o corpo.
Das que se confundem com amor, sublime dedicação, mas que não o é.

Paixões. Não tema.
César Gomes

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

No dia que não quis chorar, chorei pra dentro.
E essa lagrima - veneno - corrompe minhas entranhas até hoje.

César Gomes

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

O Ovo e o Ego

Nas entranhas do seu ser existe um objeto guardado. O mais bem guardado de todos os seus objetos. Está ao centro do maior cômodo, em cima de um mosaico, infinitamente belo e helicoidal, feito no chão por lascas de tons vermelhos. É de um tamanho particularmente grande, chega quase ao teto, que é realmente distante do chão. Equilibra-se em um pedestal de triplo pé, onde os pés de metal acabam em uma forma arredondada. É absolutamente homogêneo, imponente sobre o tripé, não se vê uma imperfeição na sua superfície. É como um ovo. Um ovo dourado, grandioso e radiante e absolutamente polido. Nele é guardado o seu EGO mais puro, dentro dele. E a casca é o seu orgulho, dourado. E cada apreço que lhes tem, cada amor que lhe oferecem é guardado em um pote, numa prateleira ali perto e é com eles que você poli seu objeto sagrado. Não abres mão de nem um amor, nem uma paixão repentina, nem um apreço espontâneo e passageiro, muito pelo contrario. Você seduz, induz, enfeitiça mais ainda, pra produzir e armazenar mais um frasco na sua prateleira de troféus.
                Quando um desses frascos cansa e percebe que é só mais um. Quando ele vê que nada mais é que um polidor do seu orgulho e vaidade, ele se rebela. E tenta alcançar seu EGO. E o único modo que ele tem de aparecer... de se destacar... o único meio que você deixou ele chegar perto de você... é no seu orgulho, na sua vaidade. E com um grão de areia de esperança arranha seu orgulho. Esse frasco é jogado pra longe... pro canto do salão. E se sente mal e culpado... arranhou uma coisa linda. E assim vão-se todos os frascos. Uns são quase infinitos... outros são esquecidos e evaporam. São poucos os que simplesmente dão as costas e vão embora.

Hoje eu descobri que teu dourado não é ouro e que teu ego é solitário.

Recife, 22 de agosto de 2008
Cayo Cé.